sexta-feira, 12 de março de 2010

Notícias do front

Não deu pra escrever antes, a avalanche que passou por aqui logo no comecinho do ano foi daquelas que a gente não espera que aconteça nunca. Veio tudo junto. Num exame de rotina logo na primeira semana de janeiro, algo que não deveria estar lá. Uma imagem, a cara feia do médico e aquele nó na minha garganta. Quem acompanha meus blogs há mais tempo, sabe da história complicada que eu tive com a amamentação, a infelicidade de ter tido uma infecção bacteriana seríssima no peito esquerdo, abcessos, cirurgias, complicações inexplicáveis e internações. Daquilo ficaram muitas cicatrizes internas e externas. E agora a incerteza se a tal imagem seria ainda somente um resquício daquele problema, um nódulo de fibrose ou algo mais sério.

Perdi o chão. Imediatamente contactei minhas médicas no Brasil, peguei o avião e vim para o Brasil com a Julia. Não avisei a ninguém, não dava, não tinha cabeça pra amenidades sociais, só um ou outro ficou sabendo e mesmo assim ninguém tinha realmente a dimensão do problema porque eu não contei o risco que existia de ser algo mais. Caí no colo da minha mãe num dia e no seguinte já estava peregrinando por consultórios médicos. Passei o mês de fevereiro inteiro fazendo mil exames, ressonâncias, mamografias, risco cirúrgico e etc. Comemorei meu aniversário de 10 anos de casamento dentro do tubo de ressonância magnética.

Maridão caiu doente lá antes de eu sair também, ficou mal, por duas semanas sem trabalhar, e ainda está se recuperando de uma baixa de imunidade que abriu as portas a um vírus brabíssimo que lhe atacou o nervo torácico. Julia chegou ao Brasil passando mal, com cólicas, sem fome e até diagnosticarmos o problema dela, eu saía do consultório dos meus médicos para levá-la ao pediatra ou para fazer exames.

A vida ao meu redor pulsava freneticamente e eu tinha a impressão que só eu estava em modo "pausa". Levei Julia à praia e às bandas de carnaval no meio do turbilhão, estive de corpo presente em encontros casuais com uma amiga aqui e outra ali, mas meu espírito estava longe.

Conscientemente me afastei de aborrecimentos adormecidos, tudo passa a parecer muito pequeno pra ser digno de importância quando se tem a incerteza de como vai ser o dia de amanhã.

Fiz a primeira cirurgia na véspera do meu aniversário e comemorei no dia seguinte com bolo, parabéns e um dreno pendurado. Eu, minha mãe, Julia e maridão via skipe. Dois dias depois comemorei a retirada do dreno e o aniversário do maridão também.

E aí começou a espera mais longa da minha vida, o resultado do exame histo-patológico, do material retirado do meu peito. Foram 10 dias de muita expectativa e sofrimento. Chorei muito. E descobri quem são meus amigos verdadeiros também. Aquelas minhas amigas de infância, que ao saberem do problema, se uniram e me deram seu carinho e sua força. Aquelas que conseguiram quebrar a minha resistência de querer falar e me abrir e se mostraram presentes pra chorarmos juntas naquela agonia.

Ontem eu cheguei em casa de mais uma cirurgia, dessa vez na barriga, outro problema que há muito tempo me incomodava, uma endometriose não convidada. Estava e ainda estou morrendo de dor que mal consigo andar.

E ontem também, no meio dessa dor toda foi que eu tive o maior alívio de toda a minha vida até hoje, quando o telefone tocou e minha médica me disse que não era nada, que o resultado foi benigno. Chorei de novo.

Por tudo isso e mais um monte que não cabe aqui eu sumi. Estou recolhendo os cacos do espírito e me recuperando de tanta anestesia geral que me deixou meio gagá.

Não sei se voltarei a escrever neste blog, ainda estou no Brasil e volto em breve para a Alemanha. Estou com vontade de renovar. Quem quiser saber o endereço do novo blog, quando eu recomeçar, deixa um e-mail de contato neste post, que eu aviso quando voltar. Ou quem preferir mande um email para cdcanto10@googlemail.com

Beijos e até breve!